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 A recusa em fazer parte do problema

O fracasso das políticas é, como o inferno, sempre culpa dos outros. Ora, com que nos deparamos ?

Os professores persistem em assacar a responsabilidade pelo insucesso aos alunos e às suas famílias. Como se o desejo de instrução fosse pensado como já existindo, como se a tarefa do professor consistisse ainda e sempre em transmitir saberes a alunos perfeitamente dispostos a assimilá-los, com excepção de alguns momentos de turbulência ou de fadiga. Dizer " Dêem-me alunos que queiram aprender, gostem de aprender, dominem a linguagem escolar e todos os códigos, beneficiem de todos os apoios familiares e eu comprometo-me a eliminar o insucesso escolar ", é dizer de facto : " Tragam-me um problema resolvido e eu comprometo-me a resolvê-lo num instante ". Os alunos " são o que são ", a única competência profissional válida é fazer alguma coisa com eles. Desperdiça-se no sistema educativo uma energia desproporcionada a procurar culpados, quando o que há são problemas que não podem resolver-se a não ser considerando-os normais e enfrentando-os com método. Ninguém poderá acusar um problema por não estar resolvido ! É aquele que o enfrenta que faz a diferença, ao encontrar, ou não, uma solução.

Os políticos têm por norma (com algumas honrosas excepções) atirar todos os males para cima da detestável mediocridade dos seus antecessores (mesmo que da mesma coligação) e anunciar que vão, finalmente, enfrentar os verdadeiros problemas. Voltarei a isto a propósito da procura de efeitos a curto prazo.

Os pais queixam-se da escola, mas, na sua maioria, comportam-se hoje como consumidores da escola (Ballion, 1982) bastante egocêntricos, que não se preocupam com os efeitos perversos das suas estratégias de orientação. Em nome dos interesses do seu filho - o que, obviamente, é compreensível - alteram o sentido do mapa escolar, das áreas, das opções, dos diplomas, reintroduzindo hierarquias camufladas onde o sistema educativo ia no sentido da via única e da coexistência de todas as classes sociais. Os pais que mais alto falam são, em geral, aqueles cujos filhos recebem quase tudo do sistema educativo, enquanto que aqueles cujos filhos foram há três ou seis anos encaminhados para as áreas desvalorizadas não encontram porta-vozes tão eficazes.

Os directores dos estabelecimentos e os quadros das escolas estão mais preocupados em conservar ou melhorar a sua posição e administrar a sua organização do que em transformar as práticas pedagógicas. Assim que a mudança ameaça o seu poder de gestão, ou simplesmente a tranquilidade da organização, escolhem a segurança.

Os formadores, os mestres da didáctica, os investigadores em educação, os inspectores, em suma, os membros da noosfera, estão frequentemente mais prontos a lançar pedras aos praticantes do que a comprometer-se nas transformações no terreno. Isto explica-se, sem dúvida, pelo facto de que, no sistema educativo, os que pensam sobre as práticas são, na sua maioria, professores que " conseguiram " deixar de dar aulas. Não estão interessados em voltar a mergulhar nas contradições da acção pedagógica.

Os empregadores julgam muitas vezes a escola de forma simplista e recusam-se a admitir que não podem exigir assalariados, ao mesmo tempo, capazes de evoluir de acordo com os progressos tecnológicos e das restruturações do aparelho de produção e imediatamente adaptados ao seu primeiro emprego.

Philippe Perrenoud, 2002

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